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    BACK IN BLACK

    AC/DC

    1980
    Por Rafael Corrêa

    álbum ainda não votado pelos leitores

    Em 25 de Julho de 1980, há exatos 30 anos e 2 dois dias, era lançado o sétimo álbum do AC/DC. Até aí, nada demais. No entanto, após a morte de Bon Scott em 19 de fevereiro daquele mesmo ano, muitos duvidavam que a banda lançasse algum material novo, ainda mais em momento próximo ao falecimento de seu vocalista. Ok, mesmo assim, nada disso é muito surpreendente. Na verdade, a grandiosidade de "Back in Black" reside, principalmente, nas circustâncias havidas ao seu entorno (que o puxavam para baixo de todas amaneiras possíveis) e na grande vitória que álbum representa. Afinal, este é o disco de rock mais vendido da história e o segundo mais vendido em todos os tempos, dentre todas as vertentes musicais, perdendo apenas para "Thriller", de Michael Jackson.

    Em 1979, o AC/DC estava no auge de sua força. Com o sucesso de "Highway to Hell", lançado julho do mesmo ano, e a consolidação da banda como nome forte do rock and roll, o grupo firmava o pé e ocupava um espaço cada vez maior no cenário musical internacional. O AC/DC não era mais uma banda da Austrália: era uma banda do mundo, pertencente à ele e com a missão da sacudí-lo o quão possível fosse. Quando Bon Scott partiu sozinho em um carro estacionado no frio de Londres, devastado e longe de ser (ou aceitar a ser) o símbolo que representava, era como se estivesse à deriva, e a sensação que se tinha sobre a banda era que o AC/DC seguiria pelo mesmo caminho e acabaria por silenciar seu trabalho com um trágico fim.

    Todavia, seja pelo destino ou por alguma outra razão que em grande parte das vezes transcende a nossa compreensão, essa não foi a postura adotada por Malcolm e Angus Young. Com a benção da família de Bon, o AC/DC seguiu em frente para dar sequência à sua obra e mudar a história do rock. Ao escolher o antigo vocalista da banda Geordie para assumir a função insubstituível de Bon Scott, a banda se refugiou sob o Sol das Bahamas para gravar o novo disco no Compass Point Studios, em Nassau. O local era um verdadeiro paraíso, e o estúdio já havia recebido lendas como Ringo Starr e Alice Cooper e, em menos de dois anos, seria a nova casa na qual o Iron Maiden gravaria seus álbuns essenciais. Mas, ainda assim, Brian Johnson sentia-se inseguro sob a sombra de Bon Scott.

    As letras foram trabalhadas de modo singelo pela já conhecida parceria dos irmãos Young, agora acrescida com o novo talento de Johnson. Era nítida a diferença de personalidade entre ele e Bon mas, em certo ponto, era isso que a banda procurava e todos sabiam que não havia em qualquer canto do planeta outro Bon Scott, seja em sua capacidade de escrever letras brilhantes e carregadas de significações dúbias ou simplesmente em sua performance no palco. O mesmo ocorreu com a musicalidade do disco: quase todas as canções foram concebidas de modo crú, e o produtor Robert "Mutt" lange soube captar e manter esse espírito durante as gravações. Assim, com esse caminhar rápido, Johnson sentiu-se, enfim, como parte integrante dessa família. O resto, como todos sabem, é história.

    Talvez essa seja a maior razão para que "Back in Black" seja recheado por pérolas. Era como se a desgraça que a banda havia abarcado tivesse, de certo modo, lhe dado uma força criativa que dificilmente seria revista. Afinal, todas as canções do álbum apresentam uma característica especial, desde aquelas que tornaram-se hinos e encontram-se presentes nos set lists ainda nos dias de hoje, até o restante do disco. O curioso é que, em diversos momentos, mesmo com a voz de Brian Johnson nos guiando, parece que nos é possível e permitido sentir a presença de Bon. Isso fica mais evidente em "Let Me Put My Love into You", canção próxima aos moldes de Scott e que funcionou perfeitamente em "Back in Black". "Shoot to Thrill" e "Rock and Roll Aint Noise Polution" também evidenciam o brilhantismo do grupo em lapidar quase que inconscientemente as suas canções, assim como em "Shake a Leg". As demais, como "Hells Bells", "Give the Dog a Bone", "You Shook Me All Night long" e a própria faixa-título dispensam comentários: são um verdadeiro legado da banda para a humanidade.

    Olhando para a história do grupo, também é possível perceber que o AC/DC é uma das poucas bandas que não se preocupam em singrar por novos mares em busca de novas sonoridades. Sua música é uma espécie de patrimônio do qual a banda é incapaz de se desfazer. É fato: há quase 40 anos o AC/DC utiliza a mesma fórmula sem ser repetitivo ou vazio, fazendo e produzindo o que tem de melhor, uma música direta, objetiva e capaz de sacudir até o mais denso efermo. Sobre este fato, "Back in Black" representa uma espécie de coroação, como a amostra da força da banda que, em seu pior momento, foi capaz de brindar o mundo com um dos melhores discos de rock da história, capaz de ser agradável até nos ruídos que dividem as canções em seu formato original, em vinil. É o rock and roll em sublimação, captado no ar e transformado em arte, como há muito não é feito.


    NAÇÃO NORDESTINA

    ZÉ RAMALHO

    2000
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 5.00

    Há dez anos Zé Ramalho lançava um de seus álbuns mais importantes, ou o mais importante, como cita Assis Ângelo no encarte do CD. O álbum, conceitual, já entrega essa grandiloqüência em seu projeto visual: a capa é uma homenagem ao clássico “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, com os ícones nordestinos de todos os tempos posando ao lado de Zé Ramalho; o projeto gráfico inclui um generoso libreto com as letras e a sinopse de cada faixa do álbum duplo.

    A idéia de criar um álbum que mostrasse ao Brasil a cara do Nordeste, não só colocando o dedo na ferida, mas também apresentando a riqueza cultural de canções de autores conhecidos do grande Brasil, em conjunção com outros quase anônimos, além do próprio Zé Ramalho, que contribui com seis músicas inéditas suas, dentre as vinte do álbum.

    Algo que faz “Nação Nordestina” tão especial é o conceito do álbum, baseado nas desventuras de um viajante percorrendo o nordeste do Brasil. As canções vão se encaixando em um mosaico de teor político, que é endossado pelos canhões das tropas em “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, regravação de Geraldo Vandré, aqui recheada de efeitos que a torna uma das melhores gravações já feitas da música.

    A política está em outros momentos do álbum como em “O Meu País”, onde, sem mais delongas, Zé vai direto ao assunto, apontando o dedo, mas de “bico calado”, as desigualdades do país. Ou ainda em “Ele Disse”, que ganha ainda o discurso do presidente Getúlio Vargas, realizado no dia do trabalhador em 1951.

    O sertanejo que caminha ao longo do Nordeste também retrata os seus costumes em vários momentos como na regravação de “Lamento Sertanejo”, de Gilberto Gil e Dominguinhos, que ganha o reforço do próprio herdeiro musical de Luiz Gonzaga, e da Guitarra de Robertinho do Recife, que é o produtor do álbum.

    Os contrapontos também ilustram a obra de Zé Ramalho, às vezes até em sequência, que é o caso das faixas “Temporal” e “Seres Alados”. Se na primeira o viajante entrega que “quem cala, consente a fala”, na segunda a indignação toma conta e manda “Não mais estaremos calados”, contando com o fim da submissão dos gritos do capitão da canção anterior.

    No fim do primeiro disco, Zé Ramalho faz uma espécie de duelo de irônicas perguntas e respostas com o povo na canção “Mourão Voltado Em Questões”, novamente com contexto político, dessa vez corroborado pelo povo que segue o sertanejo ao longo dessa caminhada proposta no disco.

    Já o disco 2 é menos político, recheado de participações especiais, é muito mais devotado ao ritmo nordestino, como entrega a primeira faixa “Violando com Hermeto”, uma canção instrumental onde Zé Ramalho e Naná Vasconcelos duelam com Hermeto Pascoal. O trem da canção, criado por Naná, abre espaço para o êxodo em “Hino Nordestino” como entrega a letra da canção “...tentar a sorte no Rio de Janeiro, São Paulo, no mundo aceito o desafio...”.

    Em “Bandeira Desfraldada”, temos uma interessante fusão de uma cítara brilhantemente nordestina, tocada por Robertinho do Recife, que ganha o reforço da Elba Ramalho, inspiradora da canção gravada originalmente em 1978.

    O êxodo continua a ser retratado no álbum através da regravação de “Pau-de-Arara” do mestre Luiz Gonzaga, aqui com uma riqueza musical incrível, capitaneada por uma verdadeira seleção de músicos. “Amar Quem Já Amei”, transcrita aqui como forró com a participação de Ivete Sangalo, traduz os maiores medos dos retirantes como o fracasso da volta sem êxito à terra natal.

    Por vezes as tristes letras, principalmente no reflexivo segundo disco, são eclipsadas por ritmos alegres, como pode ser percebido em “Garrote Ferido”, com as marcantes participações de Fagner, Pepeu Gomes e a percussão de Mingo Araújo.

    A saudade da terra querida, porém é doída e aqui é validada pela canção “Paraí-ba”, com melancólico vocal de Flávio José e brilhante arranjo de Zé Ramalho.

    “Eu Vou Pra Lua”, divertido forró gravado originalmente em 1960, nove anos antes de o homem pisar na lua, traz, nessa nova versão, a participação do grupo pernambucano Cascabulho, na última participação especial do álbum.

    A tensa e apocalíptica “Esses Discos Voadores Me Preocupam Demais”, recheada de efeitos especiais, apresenta a curiosidade e discussões sobre a existência ou não de vida fora da Terra. Apesar de muito bacana, esta é a única canção que talvez fuja um pouco da temática principal, presente em todo o álbum.

    Com “Digitado Em Poesia”, o viajante que percorre o sertão apontando as mazelas, medos e esperanças da nação nordestina, chega ao final da caminhada, sabendo que chamou a atenção, fez barulho, e principalmente, mostrou a beleza de sua cultura e o talento de seu povo.

    Zé Ramalho construiu uma obra singular, que merece estar sempre disponível através de disco, para ser ouvida, estudada e compreendida pelas próximas gerações. “Nação Nordestina” é mais que um disco, é um invólucro munido de história e literatura, cantada e tocada.

    Como em seus últimos álbuns Zé Ramalho prestou homenagem aos seus ídolos Raul Seixas, Bob Dylan e Jackson do Pandeiro, seria uma boa se ele resolvesse prestar um tributo a si mesmo. Certamente consistiria em uma grande idéia se o projeto “Nação Nordestina” ganhasse edição comemorativa com versão em vinil (já pensou a maravilhosa capa do CD em tamanho de LP?), álbum ao vivo, e DVD com a releitura na íntegra desse álbum. Não custa nada sonhar, não é mesmo?


    STONE TEMPLE PILOTS

    STONE TEMPLE PILOTS

    2010
    Por Anderson Nascimento

    álbum ainda não votado pelos leitores

    Nascida na Califórnia, durante da ebulição sonora provocada por uma certa banda de Seattle, o “Stone Temple Pilots” já parecia ter um destino certo, o fim precoce. Estourados na MTV, onde em 1993 ganharam o prêmio de “Banda Revelação”, e impulsionados pelo sucesso do primeiro CD, “Core”, que vendeu mais de sete milhões de cópias, a banda foi rapidamente convocada pela emissora pra gravar o seu “Unplugged”.

    Esse repentino e inesperado sucesso começou a ruir na hora em que a banda vinha colhendo os frutos de seu instantâneo sucesso, em plena turnê de seu terceiro disco, com os problemas de seu front-man Scott Weiland com as drogas, o que levou a banda a cancelar uma série de shows.

    Em 2003, a banda anunciou o seu fim, após o lançamento de uma coletânea com os hits da banda, o que acabou acontecendo devido às prisões e pesados envolvimentos do vocalista com as drogas.

    Com o fim da banda Scott, virou o vocalista da banda formada por ex-integrantes do Guns and Roses, “Velvet Revolver”, seus amigos de banda viraram produtores musicais. Ao deixar o Velvet, Scott foi deixando pistas na imprensa de que a banda estaria voltando, o que de fato aconteceu, resultando em uma turnê pelos EUA em 2008, obviamente sugerindo a gravação de um novo disco.

    Nesse primeiro disco desde a sua volta, temos uma banda mais adocicada, domada, e um Scott mais comedido. O grande atrativo desse álbum é justamente esse, a forma dispare ao formato ao qual a banda é historicamente reconhecida.

    E isso não é um demérito, pelo contrário, é uma prova de que os membros da banda ganharam um precioso tempo para amadurecer sua sonoridade, caprichando principalmente nas melodias das suas doze canções. As letras, recheadas de amargas inspirações que vão do recente divórcio de Weiland à morte de seu irmão, talvez também acabem contribuindo para a sonoridade mais melancólica do álbum.

    Mesmo assim, o primeiro single “Between The Lines”, busca nas raízes da banda o som ideal que represente a sua volta, o que funcionou bastante bem, pois a banda atingiu o primeiro lugar da Billboard com a mesma. Essa busca ao seu tradicional som também ocorre em "Fast As I Can", mais um dos poucos momentos em que a banda lembra o seu som original.

    Já na segunda faixa e segundo single do disco, "Take a Load Off" ,a banda convida o ouvinte a conhecer o novo “Stone Temple Pilots”, com melancolia espalhada ao longo da canção, que destaca-se por vocais em côro que emula os anos sessenta.

    O mesmo acontece em “Hickory Dichotomy”, anos sessenta puro, mais precisamente algo entre a harmonia vocal dos Beatles e a pegada dos Kinks, ou ainda na adocicada e ensolarada "Cinnamon", que inclui inclusive os “Come on, come on”, tão populares nos anos sessenta.

    Esse mesmo estilo também volta a rolar no disco em "First Kiss on Mars" , cançãozinha de três minutos com um impressionante apelo pop, lembrando as músicas mais cantaroláveis do Weezer.

    Os baladões, que funcionam incrivelmente bem na voz de Weiland, também estão presentes também no álbum, como em "Dare If You Dare", com um riff chupado da versão de Eric Clapton para “Little Wing”. As baladas inclusive dão o tom de despedida do álbum ao aparecer no encerramento do disco com a canção “Maver”.

    Assumidamente calcado nos anos sessenta e setenta, o auto-intitulado novo álbum do Stone Temple Pilots, é um prato cheio para aqueles que gostam de uma boa diversão, mas é bom que saibam que aquela banda de meados dos anos noventa não é mais a mesma.


    O RAPPA AO VIVO

    RAPPA, O

    2010
    Por Anderson Nascimento

    álbum ainda não votado pelos leitores

    Tida atualmente como a banda mais politiza do cenário nacional, O Rappa já soma incríveis dezesseis anos de carreira, e agora, com esse novo cd, chega a oito CDs lançados, sendo cinco álbuns de estúdio.

    Entre os álbuns de estúdio, a banda coleciona dezenas de sucessos capazes de levantar qualquer multidão, parte disso através do apelo que as boas canções do grupo possui, e graças também ao desempenho do vocalista Falcão em cena.

    Nesse show, o Rappa enfileira quase trinta canções de seu rico cancioneiro, para deleite dos presentes ao show realizado no dia 28 de agosto do anos passado na favela da rocinha no Rio de Janeiro. Estão lá sucessos mais antigos como “Hey Joe”, “Vapor Barato” e “Pescador de Ilusões”, e outros da safra mais recente como “A minha alma” e “Reza Vela”, além de canções do último disco de inéditas “7 Vezes”, como “Monstro Invisível” e “Meu Santo Tá Cansado”, senti falta de algo inédito nesse disco.

    O resultado de um trabalho assim, relembrando os grandes sucessos da banda em um cenário bastante receptivo, é vitória certa, sem qualquer risco, restando à banda apenas se entregar às canções e ao público. E isso a banda consegue fazer muito bem.

    A versão em DVD, muito bem filmada e mixada em potente som, apesar de não possuir encarte e poupar maiores melindres, funciona muito bem, até melhor que o CD, pois no DVD podemos vivenciar mais calorosamente a empolgação do público, além de ver os efeitos visuais das canções, como em “O Salto”, uma das melhores canções da banda, que ganha um bacana jogo de luzes que só ajuda a deixar a canção ainda mais empolgante.

    “O Rappa Ao Vivo” pode ser encontrado em formato de CD em duas versões, um CD duplo e dois volumes vendidos separadamente, além da versão em DVD.


    NIGHT TRAIN

    KEANE

    2010
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 5.00

    “Night Train” é o primeiro EP da banda Keane, mas diferentemente dos EP´s tradicionais, que normalmente trazem quatro músicas, este tem quase o peso de um CD “cheio”, trazendo oito faixas.

    É bem verdade que a primeira faixa, “House Lights”, é apenas uma espécie de abertura do disco, com pouco mais de um minuto, mas que funciona como uma bela introdução para “Back in Time”, a grande música desse disco.

    Em “Night Train”, a banda capitaneada por “Tom Chaplin”, dá sequência à sonoridade dançante de “Perfect Symmetry”, seu último disco de estúdio, apostando ainda mais em sintetizadores e efeitos de estúdio que tornam o som da banda ainda mais pop.

    Esse caminho tem sido trilhado pela banda já há algum tempo, o que tem descaracterizado a banda como uma mera seguidora do estilo que o “Coldplay” tornou famoso no fim dos anos noventa.

    Em "Stop For a Minute", primeiro single desse EP, o rapper somali-canadense Knaan junta-se à banda para mais uma bela faixa, com direito à “ôoôs”, que lembram, perdoem me o clichê, o U2. O rapper também aparece em “Looking Back”, uma canção com um curioso riff que lembra a famosa trilha sonora do personagem Rocky Balboa de Sylvester Stalonne.

    A faixa "Your Love", também é curiosa por trazer o compositor e pianista Tim Rice-Oxley nos vocais, assim como em “Ishin Denshin”, que traz a cantora japonesa Tigarah dividindo os vocais com Tom Chaplin.

    A música que fecha o disquinho é “My Shadow”, única desse novo repertório que chega a lembrar o Keane de “Hopes and Fears”, no estilo baladão marcada por piano e vocais destacados, sempre à frente dos instrumentos.

    O álbum foi muito bem recebido pela crítica, atingindo o primeiro lugar na Inglaterra e, pra nossa sorte chegando até o Brasil, coisa difícil em se tratando de EPs ou singles.

    Gravado ao longo da turnê de “Perfect Symmetry”, “Night Train” é livre de qualquer amarra de conceitos estáticos de um álbum tradicional, o que mostra a banda divertindo-se através de caminhos já trilhados anteriormente pelo grupo, ou em parceiras, que incluem o rap, e que por tabela, diverte também quem ouve o disco.


    VARIAS VARIÁVEIS

    ENGENHEIROS DO HAWAII

    1991
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 5.00

    Após o imenso sucesso feito pelos Engenheiros do Hawaii com o disco “O Papa É Pop”, onde nada menos que cinco músicas do álbum foram parar nas rádios, a banda avançou ferozmente em torno do estilo que se camuflava nas entrelinhas das faixas mais pops do disco anterior, o Rock Progressivo.

    Várias Variáveis, sexto disco da banda, oferece ao ouvinte uma sonoridade pesada como eles nunca tinham feito anteriormente. Já no primeiro single do disco, a canção “Herdeiro da Pampa Pobre”, uma regravação do cantor “Gaúcho da Fronteira”, a banda despeja um instrumental potente em um ritmo acelerado o que fez com que rapidamente a canção se tornasse o primeiro sucesso do disco.

    Nessa mesma linha estão também as canções “Sala Vip”, uma caótica conjunção de idéias que eriça sobre uma espessa camada de Rock pesado, “Sampa no Walkman”, uma homenagem à “Sampa” de Caetano Veloso, “Museu de Cera” e “Quartos de Hotel”. Mesmo as canções consideradas as baladas do álbum, também têm o seu momento mais pesado, como pode ser observado nas canções “Ando Só” e “Piano Bar”.

    Além desse clima pesado, que por si só já configura o álbum como uma peça singular dentro da discografia dos Engenheiros, a evolução da chamada fase progressiva da banda é evidente, com vinhetas, músicas com erros de gravações que acabavam por contrastar com a cobrança por perfeição exigida pela própria banda, além de muitos efeitos nos vocais de Humberto Gessinger, que por sua vez duelavam freneticamente entre uma caixa de som e outra em nosso velho “três em um” da época.

    O segundo hit do disco “Muros e Grades” é outra canção que levantou poeira por onde passou, a canção, arrasadora, invadiu as rádios e levou os fãs à loucura. Parte disso por sua letra, que ainda nos dias de hoje é atualíssima.

    “Piano Bar” é um épico que vai se desenhando ao piano até ser acometido por guitarras e solo marcante de Augusto Licks, forte marcações e viradas de bateria de Carlos Maltz, até chegar a um vocal alucinado de Humberto Gessinger. Até hoje a canção está entre as principais músicas da banda, sendo obrigatória em qualquer show dos Engenheiros do Hawaii.

    Em “Ando Só”, a banda consegue construir outra das grandes canções de sua carreira. A música inclusive ganhou uma releitura fantástica no álbum seguinte “Filmes de Guerras, Canções de Amor”, o que só confirma o potencial da canção.

    A riqueza instrumental desse disco impressiona. Os instrumentos atuam em harmonia o tempo todo, mas ainda assim têm cada um o seu próprio momento de onipotência no álbum, a bateria competente de Carlos Maltz, o baixo pulsante de Humberto e as guitarras de Licks cuspindo solos que ficaram até hoje no inconsciente dos fãs, como na música “Não É Sempre”, que juntamente com a sua co-irmã “Nunca é Sempre”, fecham essa obra prima, que ironicamente encerra o disco de forma absolutamente dispare do que foi o disco, com um singelo “fim”, dito sem cerimônias por um Humberto que talvez não tenha percebido naquele momento a obra prima que acabara de criar.

    “Várias Variáveis” até hoje é lembrado pelo próprio Humberto como o álbum “mais paulista” dos Engenheiros do Hawaii, mas certamente a banda criou um álbum que, se não fez mais sucesso que “O Papa é Pop”, conseguiu exibir uma faceta de uma banda mutante, que até aquele momento em sua carreira, já havia passado (nessa ordem) pelo Ska, Folk, Rock básico, Pop e Progressivo, sempre se reinventando e nunca decepcionando.

    Mas se “O Papa é Pop” iniciou a viagem da banda pelo Rock Progressivo e “Várias Variáveis” ampliou esse conceito, o álbum seguinte, “GLM”, viria para fechar com chave de ouro essa fase da banda, atingindo o ápice do que a os Engenheiros poderiam criar nesse estilo, ampliando às últimas conseqüências o conceito iniciado por eles mesmos apenas dois anos antes.


    SCREAM

    OZZY OSBOURNE

    2010
    Por Rafael Corrêa

    opinião dos leitores: 4.50

    Quando uma lenda do heavy rock lança um novo trabalho, os nervos dos headbangers se eriçam. Em uma época de tristeza e decepções, todos ficamos ansiosos por boas novas de nossos heróis. “Scream”, novo disco do Mr. Madman Ozzy Osbourne, não foge à regra: eis, uma vez mais a velha expectativa de sempre. E essa perspectiva aumenta ainda mais pelas circunstâncias em torno do álbum, que conta com um novo condutor das seis cordas: o grego Gus G. foi chamado a ocupar o posto do virtuoso ébrio Zakk Wilde.

    No entanto, nem é possível sentir falta de Zakk: grande parte do material já estava composto (e, dizem alguns, que até gravado) quando Gus G. assumiu as guitarras. Por isso, ao ouvir “Scream”, parece que estamos a escutar o velho Zakk, sem muitas variações. Quanto às canções, a premissa não é a mesma. “Let it Die”, faixa de abertura, já mostra a presença de novos elementos, como alguns efeitos sonoros e beats que hoje estão na moda. A voz de Ozzy, se comparada ao trabalho precedente, “Black Rain”, de 2007, está mais “maquiada”: outros efeitos de vocal apresentam-se durante todo o disco para compensar os 40 anos de estrada de Osbourne.

    Musicalmente, tanto “Let it Die” quanto sua sucessora, “Let Me Hear Your Scream”, são satisfatórias. Os refrãos repetem-se na nossa mente mesmo após o término das canções. Logicamente, nem se comparam com a obra dourada de Ozzy, produzida na década de 80; mas, ainda assim, agradam o ouvinte pelo seu peso e limpidez. No entanto, “Scream” é sustentado também por erros: “Soul Sucker” e “Latimer’s Mercy” apresentam-se eivados em efeitos desnecessários, avessos à figura e símbolo que Ozzy representa. Em “Latimer’s Mercy” até o peso da guitarra chega a ser forçado, levando-se em conta o contexto geral da produção da canção.

    Todavia, “Scream” também é feito de acertos. “Life Won’t Wait” é, definitivamente, a faixa mais bem trabalhada do álbum: pesada quanto tem que ser, harmônica a seu tempo, permeada por uma letra interessantíssima, a canção faz jus ao nome de Ozzy. Rob “Blasko” Nicholson comandou suas quatro cordas com primor, assim como Gus G. (ou Zakk???) na guitarra. “Life Won’t Wait”, é, sem exageros, uma linda canção. Outro belo momento é a despedida do disco com “I Love You All”, peça de 1 minuto de duração que mistura cordas, encadeamento acústico e distorção. A letra, composta de 4 versos, encerra-se com os dizeres: “Por todos esses anos que estiveram comigo, Deus abençoe. Eu amo todos vocês”. Chega a emocionarmos nitidamente.

    Enfim, “Scream” não é um disco histórico, e possui poucas chances de alcançar tal status. Reitera-se que em nada se assemelha com o Ozzy de “Blizzard of Ozz” ou “Diary of a Madman”. Mas, vá lá, os tempos são outros, e Ozzy tem coragem e talento suficientes para não depender de seu passado quando compõe um novo trabalho. Vida longa ao Mr. Madman e sua obra.



    COISAS DE MENINA

    LUEN

    2010
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 5.00

    Filha de uma brasileira e um alemão, a cantora Luen Cugler, nascida nos Estados Unidos, onde foi alfabetizada e ficou até os nove anos, veio para o Brasil, e foi criada na cidade de Búzios no Rio de Janeiro, onde cresceu no meio musical, participando de algumas bandas e movimentos musicais durante esse período.

    Dois fatores são preponderantes para aguçar a curiosidade de quem pega para ouvir o primeiro disco da cantora Luen.

    O primeiro envolve o combo sucesso e polêmica provocada após a divulgação no YouTube do clipe da música “Coisas de Menina”, primeiro single do primeiro álbum da cantora, e que rapidamente ultrapassou as dez mil visualizações, chamando a atenção de todos por conter cenas de meninas ilustrando a letra da música.

    O segundo fator é a participação de Luen no reality show “Geléia do Rock” de onde a cantora saiu como grande vencedora da primeira temporada do programa do canal a cabo Multishow.

    Os motivos supra-citados são suficientes para que as atenções estejam voltadas para o lançamento de “Coisas de Menina“, disco lançado agora pelo selo Discobertas, que põe Luen e sua competente banda formada por Pedro Terra (Guitarra), Antônio Van Ahn (teclado), Paulo Aiello (baixo) e Rick De La Torre (bateria), entre os principais lançamentos desse já iniciado segundo semestre.

    A cantora foi descoberta pelo produtor carioca Clemente Magalhães, que produz o álbum dando a ele um clima roqueiro que foge do lugar comum, alterando momentos com nuances das mais variadas possíveis, e que, por conta disso, acaba tornando o CD de estréia de Luen , um interessante instrumento de devoção ao Rock que expira os melhores momentos do gênero, praticados entre os anos setenta e os dias de hoje.

    Um bom exemplo disso é a canção “Rock and Roll”, com pinta da atraente fase roqueira de Rita Lee, ainda com a banda “Tutti Frutti”. Falando em Rita Lee, Luen relê, com um belo resultado, “Menino Bonito”, canção lançada por Rita no disco “Atrás do porto tem uma cidade” de 1974, que aqui ganha um arranjo que beira ao etéreo e que certamente emocionará o ouvinte.

    “Im Moving On”, canção de Yoko Ono, gravada para o projeto “Mrs Lennon”, dá provas de que a cantora se sai muito bem cantando na língua bretã, além disso, Luen também mostra toda a sua potencia vocal em “Cry Me A River”, versão do clássico escrito por Arthur Hamilton e já regravada centenas de vezes, e que aqui ganha um fino acabamento hard-Rock, e seu peculiar tratamento à “It Not For You” de Dylan, que também aponta a fuga de recriações que bebam puramente do folk tradicional.

    Contrastando com esse seu potencial, a cantora também se sai bem ao entoar baladas, como na épica canção “Sexta-feira”, um dos melhores momentos do álbum, ou quando abre timidamente o seu álbum com a minimalista “4 da Manhã”.

    “Coisas de Menina” é uma bela estréia. Trata-se de um disco roqueiro, autoral e honesto que vai somar pontos positivos para a nova geração de bandas e artistas que estão surgindo recentemente.


    CURRICULUM

    ÉRIKA MARTINS

    2010
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 4.42

    Para celebrar os mais de dez anos de carreira e um já vistoso currículo, os fãs da cantora Érika Martins ganharam um presentão do selo Discobertas. Trata-se da coletânea “Curriculum”, onde fonogramas de diversas fases da carreira da cantora são enfileirados e reunidos em um único disco.

    A tarefa de montar essa compilação não parece ter sido fácil, já que as canções envolvem parcerias com outros artistas, discos de tributos, canções de sua antiga banda, além de raridades e uma música inédita.

    Em “Curriculum”, temos o prazeroso dèja-vu de relembrar canções da época da banda Penélope, como “Holiday”, o primeiro sucesso da banda, e “Namorinho de Portão”, ambas oriundas do primeiro álbum “Mi Casa, Su Casa”. Do maravilhoso (e já raro) álbum “Buganvília”, estão presentes “Caixa de Bombom” e “Não Vou Ser Má”, esta última com participação da cantora Wanderléria. Do terceiro álbum, “Rock, Meu Amor”, temos “Continue Pensando Assim”, que traz a especialíssima participação de Samuel Rosa.

    Com relação às parcerias de Érika com grandes nomes de nossa música, destacam-se “In Between Days” cover do “The Cure” gravada junto com Herbert Vianna, que ainda hoje é muito tocada nas rádios de repertórios mais “lights”, além de “A Mais Pedida”, uma das canções mais conhecidas da banda “Raimundos”. Já das regravações em tributos destacam-se a parceria com os “Autoramas” na canção “Let Me Sing, Let Me Sing”, gravada no tributo à Raul Seixas e “Goodbye”, gravado em um álbum em tributo aos Beatles.

    O disco ainda tem espaço para a rara “Pare o Casamento” com a sua banda paralela “Lafayette & Os Tremendões”, que havia figurado somente em um compacto em vinil. Além da inédita “Waiting For My Song”, canção que já é hit no comercial do Mercado Livre que vem sendo vinculado na Tv.

    O belo e esmeroso trabalho gráfico do disco, característica marcante nos lançamentos do selo Discobertas, é um destaque por trazer bonitas fotos e recuperar a ficha técnica da gravação de cada faixa, incluindo nesse contexto o nome do álbum onde cada canção apareceu originalmente, coisa que deveria ser obrigatória em coletâneas.

    Com o acertado lançamento de “Curriculum”, o público em geral poderá ter idéia da importância e do talento de Érika Martins para o nosso pop/Rock contemporâneo. Recomendadíssimo!


    DAS KAPITAL

    CAPITAL INICIAL

    2010
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 3.33

    “Ressurreição”, a bela faixa que abre “Das Kapital", décimo segundo álbum de estúdio da banda de Brasília, sugere que um bom disco vem pela frente. A incrível coincidência do fato de a canção ter sido escrita antes do grave acidente acontecido com Dinho Ouro Preto, certamente influenciou na escolha da mesma para abertura do disco. Apesar disso, o efeito aplicado na voz de Dinho no início e ao longo de quase toda faixa quase compromete a mesma, pois soa como lugar comum, principalmente ao levarmos em conta os trabalhos mais recentes de bandas que estão aparecendo ultimamente, onde esse efeito aparece em dez em cada dez lançamentos. De qualquer forma isso não atrapalha em nada o ótimo novo disco da banda.

    O single “Depois da Meia-Noite” comprova isso, já que é uma música que tem a marca jovem e pop da banda Capital Inicial que, como ninguém, soube atualizar o seu som e com isso, tem arrebatado milhares de novos fãs a cada novo disco e, conseqüentemente, nova turnê.

    Apesar de o Capital Inicial preferir não mexer em time que está ganhando, pois continua repetindo velhas fórmulas de trabalhos anteriores, a banda mostra-se ainda competente ao criar baladas como “Não Sei Por Quê”, uma das músicas mais bacanas do disco, com ares retrô, que lembra a sonoridade feita pela banda do fim dos anos noventa. Ou ainda quando relembra a sonoridade de seus primeiros álbuns nos anos oitenta com a canção “A Menina Que Não Tem Nada”.

    Mas dizer que o Capital Inicial se repete, virou clichê entre os críticos, mas analisando imparcialmente “Das Kapital”, percebemos sim, ainda que timidamente, alguns flertes com novos ares que, talvez acertadamente, não chegam a ousar.

    Na faixa “Melhor”, por exemplo, o Capital traz para o seu álbum um pouco de sintetizadores anos oitenta, algo não muito comum atualmente em sua obra, que torna a faixa no mínimo interessante. Já em “Marte em Capricórnio”, a banda chega a flertar com o Rock pesado, conseguindo acertar no resultado final.

    As canções do novo álbum também devem render boas músicas para serem tocadas ao vivo. Esse é o caso de “Vamos Comemorar”, uma canção na linha Stadium-Rock, com todas as nuances que sugerem a canção sendo interpretada a plenos pulmões em uma apresentação ao vivo.

    O disco encerra com “Vivendo e Aprendendo”, uma bonita canção que incluí palminhas, coros e uma boa letra, o que certamente habilita a canção um potencial sucesso entre os fãs.

    “Das Kapital” é uma boa prova de que dá para se fazer música jovem e pop sem seguir fórmulas estabelecidas por tendências mercadológicas, e ainda assim soar atrativo, interessante e pop. Uma boa oportunidade para as bandas mais novas aprenderem um pouquinho com quem está na estrada há vinte e cinco anos.


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