Resenha do Cd Rio: Só Vendo A Vista / Martinho Da Vila

RIO: SÓ VENDO A VISTA title=

RIO: SÓ VENDO A VISTA
MARTINHO DA VILA
2020

SONY MUSIC
Por Anderson Nascimento

No distante ano de 1994, Martinho da Vila brindou o Rio de Janeiro com o delicioso disco “Ao Meu Rio de Janeiro”, dono de pérolas de seu repertório como “Pãozinho de Açúcar” e “Meu Off Rio”. Vinte e seis anos depois, Martinho acaba de lançar outro álbum que homenageia o Rio: “Rio: Só vendo a vista”.

Ao longo do álbum, Martinho não apenas passeia pelo Rio, mas também expõe críticas às mazelas que topamos por aí em nosso dia-a-dia, como perseguição às religiões afro e a solidão das crianças de rua que trabalham nos sinais de trânsito.

O novo disco certamente vai agradar aos fãs, pois tem um pouco de tudo o que Martinho vem trazendo ao longo dos anos em seus álbuns, como participações especiais de seus filhos, regravações, sambas finos, de pé-no-chão e sensuais. Até a macumbinha que andava um pouco sumida de seus trabalhos aparece aqui fechando os trabalhos.

Com 5 inéditas e 7 releituras, o disco abre com uma costumeira homenagem à Vila Isabel e à toda a sua poesia concreta, começando de forma mais tímida, mas descambando para levada de Samba Enredo. A canção é um Samba não aproveitado pela escola de samba Vila Isabel.

A partir daí Martinho emenda duas canções sobre o Rio de Janeiro. A primeira, a ótima “O Rio Chora, O Rio Canta” tem contexto histórico, perpassando pelo período em que Rio foi capital do Brasil. A segunda é a boa faixa que dá nome ao disco, que brinca com as palavras desde o seu título.

Na sequência Martinho aflora a sensualidade de sua música, uma marca registrada em seu trabalho, com “Minha Preta Minha Branca”, homenagem à sua esposa Cléo Ferreira; depois emenda “Na Ginga do Amor”, parceria com o mestre Moacyr Luz. O tema sensual volta com “Você, Eu e a Orgia”, Samba gravado por Beth Carvalho em 1978, uma bonita faixa dividida vocalmente com as suas filhas, onde Martinho elenca as vantagens de o casal não se separar.

A grande surpresa do disco é a regravação de “O Caveira”, originalmente gravada no disco “Origens” (1973). Aqui a boa releitura traz a participação da cantora Verônica Sabino, que reafirma a atualidade do tema, tendo em vista a crise e a dificuldade em se cumprir com as contas que continuam chegando. Verônica Sabino também está em “Pensando Bem”, Samba de letra incrível, lançado originalmente no disco “Verso... Reverso” (1982), é outra ótima gravação do disco.

Outro destaque do disco, “Menina de Rua” é uma canção lançada originalmente em “Você Não Me Pega”, álbum de temática infantil feito em parceria com Rildo Hora, lançado em 1995. A canção traz novamente Mart’nália em interpretação maravilhosa!

“Eterna Paz” é mais uma bonita canção, gravada apenas com voz e cavaquinho que nasceu de uma conversa como Candeia, onde divagavam que para morrer em paz deve-se cumprir a sua missão na terra.

No fim do disco há a divertida “Assim não Zambi”, onde Martinho brinca com a morte e dialoga com a sua filha Maíra Freitas; o disco fecha então com “Umbanda Nossa”, faixa em ritmo Afro, que Martinho trouxe como forma de lançar luz à situação complicada em que estão vivendo os centros de religião de origem Afro, por causa da intolerância religiosa que te afligido o Rio de Janeiro.

Com capa desenhada pelo artista recém-falecido Lan, o disco é mais um excelente trabalho do poeta do Samba que devagar, devagarinho, chegou aos 82 anos transbordando criatividade e relevância. Vida longa Martinho!



Resenha Publicada em 20/11/2020





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