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A HORA CERTA DE OUVIR UM DISCO


Postado em 04/03/2016

A HORA CERTA DE OUVIR UM DISCO WIDTH=
Por Anderson Nascimento

Certa vez eu estava conversando com um grupo de amigos sobre encontrar o melhor momento para assistir determinado filme. Durante o papo argumentei que determinados gêneros de filmes tinham hora certa para serem vistos, por exemplo, um épico eu sempre prefiro assistir no início de uma tarde de sábado, já uma hilariante comédia cai muito bem no domingo. Fui levado pelos meus amigos a questionar sobre a minha sanidade ou, no mínimo, mensurar o nível atual do meu Toque, dado o tamanho da minha lista de filmes no Netflix com títulos que seguem à espera do melhor momento para serem consumidos.

Fanático por música como eu sou, essa máxima jamais deixaria de ser aplicada às audições de álbuns musicais ao longo de minha semana. Não aqueles que vou ouvir para produzir críticas, mas os álbuns em que vou consumir puramente para dar conta da fruição. Se isso é sinal de um leve desatino, como sugeriram alguns dos meus amigos, se é Toque, se tem sentido ou não, vamos a essa análise bem pessoal.

Recriem o cenário a partir da descrição que se segue: domingão, 3 horas da tarde, tarde livre e sorriso de satisfação no rosto. Eis que olho para a minha saborosa coleção de CDs e LPs e decido sacar um disquinho da estante. Escolho ouvir “O Dia Em Que A Terra Parou” (1977), um dos meus álbuns preferidos do Raul Seixas, descubro então que foi uma má ideia.

O disco inicia pra cima com a batida funk feita pela Banda Black Rio para a canção “Tapanacara”, até aí tudo bem, mas à medida que vai avançando, o teor reflexionista do álbum transborda em canções como “Sapato 36”, “Você” e “Sim”, que se seguem nessa ordem, e transformam aquela felicidade dominical em pensamentos mais profundos que nada têm a ver com o dia nacional do churrasco, cerveja e futebol.

E não é só isso, o disco ainda traz canções como “No Fundo do Quintal da Escola” e “Eu Quero Mesmo” que emergem da melancolia que se tem ao remoer o passado, quando Raul fala dos tempos de escola, e sobre a importância de se fazer o que se gosta, independente do que os outros vão pensar.

Beatlemaníaco desde que me conheço como gente, evito ouvir discos dos Fab Four e de suas carreiras solo em “momentos errados”. “All Things Must Pass” (1970) é o meu álbum preferido de meu Beatle preferido George Harrison, mas o disco é tão melancólico que tenho que encontrar o momento mais adequado para ouví-lo. Ainda sobre George, não há como não sentir aquela dorzinha no peito ao ouvir o póstumo “Brainwashed” (2002).

Outros álbuns revelam momentos em que a pressão da vida adulta e em família é transcrita pelos artistas em suas obras, haja vista a dobradinha de Roberto e Erasmo em seus respectivos álbuns lançados em 1972.

Há discos que nos conectam diretamente com a nossa infância, no meu caso, um Roberto Carlos de 1981, por exemplo, “A Revolta dos Dândis” (Engenheiros do Hawaii, 1987), e a lista de discos que me provocam sensações das mais diversas, das quais posso não estar preparado para sentir em dado momento, é enorme. E olha que nem falei daqueles discos que por motivos diversos nos fazem lembrar saudosamente de pai, mãe, parentes, amigos, que podem tornar esta experiência deveras nostálgica e pouco agradável.

Independente dessa análise, a verdade é que ouvir música é o meu grande prazer, talvez o maior de minha vida (e tenho certeza de que o de muitos amigos também), escolher o disco certo para ouvir no momento certo é um grande desafio que com o tempo, intuição, percepção e autoconhecimento vão ajudando a superar, de modo a não comprometer o deleite de uma audição ou o próprio prazer que ela deve proporcionar.





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