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Galeria Musical

Entrevistas exclusivas

24/04/2011APOCALYPSE

Batemos um papo com a banda, que gerou uma entrevista bacana, e analisamos o seu mais novo lançamento, o CD "2012 Years From Home", que junto com o CD "Magic Spells", o DVD "25th Anniversay", livro e pôster, completam a linda caixa, um verdadeiro presente para os fãs do Rock Progressivo. Aproveite!


GM: Após 25 anos de banda, que tipo de mudanças vocês acham que foi mais significativa no som da banda?

Eloy Fritsh – Acho que cada formação apresentou uma característica diferente e que ficaram registradas nos diversos álbuns do Apocalypse. Ao gravar o primeiro LP éramos um trio com o teclado no papel principal. O som era progressivo, mas os temas eram mais curtos e as partes instrumentais menos elaboradas. Quando o Ruy voltou para a banda na década de noventa a guitarra assumiu um importante papel resultando no CD Perto do Amanhecer editado na França. Essa foi a formação de quarteto que tocou nos USA e lançou os álbuns internacionais cantados em português tornando o Apocalypse conhecido no meio progressivo internacional. Essa fase é marcada por compor longas passagens instrumentais intercaladas por vocais. Mas foi uma fase mais voltada ao trabalho de estúdio por causa das encomendas para os álbuns franceses. Nessa época posso destacar dois épicos do álbum Aurora dos Sonhos: Do Outro Lado da Vida e Vindo das Estrelas. Quando o Apocalypse virou um quinteto o som mudou novamente porque iniciamos o projeto na língua inglesa e o a sonoridade se aproximou mais dos grupos que cantam nessa língua como Kansas, Marillion, Jethro Tull, Yes, Gênesis e ELP. O uso da flauta e do violino também fazem parte dessa fase do CD The Bridge of Light. Um período que foi marcado por um maior número de apresentações, resultando também em um maior número de álbuns gravados ao vivo. Em 2010 o Apocalypse voltou para a formação de quarteto e temos um álbum que é resultante de um trabalho de estúdio em que mostramos outras facetas que vão desde baladas até o épico 2012 Light Years from Home com seus quase 14 minutos de duração. Um CD marcado pela maior presença da voz e dos arranjos de coro. O autor do livro The Apocalypse Hystory, Eliton Tomas, escreveu que o Apocalypse faz uma música que está em constante movimento progredindo e evoluindo a cada nova formação. Eu acho que isso é uma característica do próprio projeto autoral do Apocalypse que se renova a cada lançamento. A música do Apocalypse está em constante mutação para explorar novos horizontes.

GM: Acredito que seja sempre um enorme desafio lançar um álbum de inéditas, ainda mais quando esse álbum sucede o elogiadíssimo “The Bridge of Light”. Como a banda se preparou para escrever e construir o novo disco?

Eloy Fritsch – Este álbum foi um projeto que levou um pouco mais de dois anos para ser concluído. Com muito empenho e dedicação na composição, arranjo e interpretação das músicas, nós fizemos um CD inédito repleto de melodias trabalhadas pelos instrumentos solo e pela voz. Quase todo o CD foi composto no teclado e depois arranjado para os demais instrumentos. Mas o desafio foi grande porque alguns integrantes deixaram a banda e isso redobrou a responsabilidade daqueles que permaneceram para finalizar o projeto. Além disso não tínhamos só o 2012 Light Years from Home para gravar. Todo Box Set estava em produção e além disso estávamos viajando para tocar nossos shows. No papel de compositor e produtor vejo como um período de muito trabalho e tempo dedicado ao projeto do Apocalypse, mas no final tudo deu certo e a nova formação interpretou as novas composições em grande estilo fazendo um álbum inesquecível e emocionante. Me refiro, por exemplo, às canções como Take my Heart, Blue Angel, Morning Light. Todas melódicas com refrão sem perder o feeling progressivo. Na minha opinião, escutando o álbum diversas vezes, me sinto orgulhoso do resultado. Produzir e gravar em nosso próprio estúdio sempre foi muito prazeroso porque você tem mais tempo para trabalhar os detalhes e rever arranjos. Eu acho que a qualidade da gravação e dos vocais ficou superior às produções anteriores da banda. Estamos felizes com o resultado.

GM: A banda tem um reconhecido sucesso fora do país, como se iniciou essa jornada?

Eloy Fritsch – Existem muitos grupos de rock progressivo espalhados pelo mundo. Mas poucos conseguiram registrar vários álbuns resultando tem uma grande discografia. E poucos foram divulgados por uma gravadora longe de seu pais com poder de penetração no público apreciador do estilo. Acho que o Apocalypse têm vários méritos, mas um ingrediente é muito importante na longevidade de nossa arte: a criatividade. Esse ingrediente é fundamental para um grupo de rock progressivo. Precisamos sempre estar ultrapassando nossos próprios limites e buscando novidades no som da banda. A criatividade tem que ser amiga da persistência. Com tanto tempo de Apocalypse a persistência foi uma virtude que resultou em uma carreira reconhecida no meio progressivo. O investimento é grande e com o tempo vai ficando cada vez maior porque você olha para traz e lembra o quanto já se dedicou a um projeto de tantos anos. Isso chega a dar calafrios porque a responsabilidade em termos de superação a cada trabalho é maior. Quando nosso LP chegou para a gravadora Musea na França os produtores perceberam o potencial que um grupo do interior do Rio Grande do Sul tinha e acreditaram que esse grupo teria um longo caminho para trilhar no rock progressivo. Tanto a divulgação que a gravadora realizou na Europa durante a era pré-internet quanto nossa bem sucedida participação no festival americano Progday, foram decisivos para difundir o som do Apocalypse no exterior.



GM: O box que vocês acabam de lançar é um verdadeiro presente aos fãs e nota-se a esmero e cuidado com que ele foi feito. Como será o esquema de distribuição do mesmo no Brasil e no exterior?

Eloy Fritsch – Nós sempre pensamos que o fã do Apocalypse é a pessoa mais importante e que deve receber todo o carinho e consideração. É para eles que produzimos esse material diferenciado. Tenho certeza que novos fãs virão porque é o primeiro Box Set de um grupo de rock progressivo no Brasil. Então estamos bem felizes de ter conseguido finalizar um trabalho que é o resultado de anos de experiência e dedicação ao progressivo. No Brasil será distribuído pela Tratore/Fonomatic. No exterior pela Musea e a Kinesis. Como é uma edição limitada para colecionador vamos também atender os interessados pelo site do Apocalypse: www.apocalypseband.com

GM: Como foi a emoção da banda ao ter a sua história contada no livro pelo jornalista Eliton Tomasi?

Gustavo Demarchi: Acredito que num projeto como esse, a afinidade entre o escritor e o bigrafado é fundamental. O Eliton é um amigo de longa data e já faz parte da história da Apocalypse. Quando começamos a formatar o projeto ele foi uma escolha natural. Não pensamos em outra pessoa. E a paixão com que ele se envolveu no projeto se reflete no seu texto e cria um atrativo a mais q é essa forma toda pessoal que ele teve de contar essa história.

GM: Vi ampla expectativa da imprensa e público por esse box. Vocês acreditam que esse é o melhor momento da banda nesses 25 anos?

Eloy Fritsch – Esperamos que este seja um momento de reconhecimento e que nossa música possa ser ouvida e apreciada por mais pessoas que acreditam na arte criada no Brasil. Somos um grupo de música autoral. Hoje em dia o público em geral prefere uma banda cover do que artistas independentes que mostram sua arte. Agindo dessa maneira permanecem na mesmice. Esquecem que assim não há criação. Não há composição. Não há futuro para o país se não há criação. Como ter uma produção musical nacional com destaque no exterior se a própria população não se interessa pela criação que é feita sem o apoio da mídia paga? Então este projeto é a prova que um grupo brasileiro que nunca apareceu na Rede Globo pode superar muitas dificuldades e apresentar um trabalho criativo de auto-produção. O Box Set foi financiado pelo projeto de incentivo à cultura da nossa cidade natal Caxias do Sul. Um projeto que concorreu com outros e foi escolhido por mérito. Isso já é um reconhecimento à nossa arte e esperamos que o Box Set seja do agrado de todos. Esperamos que ele possa chegar até às pessoas que querem ouvir o Apocalypse e ampliar seu horizonte musical incluindo rock progressivo nas suas audições.

GM: A mudança para a gravação de canções em inglês impactou também na mudança no estilo da banda? Que outras mudanças ocorreram depois que a banda passou a cantar em inglês?

Gustavo Demarchi: Como eu normalmente digo, mudamos não só uma lingua, mas uma filosofia. Eu tenho influências na maneira de compor e tocar, que creio, não existiam ou estavam em menor dose antes da minha entrada. Então hoje, somos principalmente uma banda de palco, sendo que a fase anterior em portugues era mais "estudio", e desde minha entrada e essa mudança, há 7anos atras, geramos 5 álbuns e esse é o primeiro disco totalmente composto e gravado em estúdio, o que faz com que pela primeira vez nesse tempo, tenhamos que "testar" esses arranjos em palco. Para mim, não deixa de ser um pouco surpreendente esse caminho inverso, mas é reflexo dessa postura da banda, que é mais "rocker" em todos os sentidos. Sobre mudanças, existe claro, uma evolução natural nossa como músicos e pessoas e que reflete logicamente em nosso trabalho, mas sempre buscamos acrescentar algo novo. Acho que de uma forma geral, sempre temos alguma coisa pra "transcender" e esse boxset mostra isso também.

GM: Algo que me agrada muito no som da banda é a perfeita dosagem entre os momentos instrumentais e as interpretações em si, o que acabam construindo canções acessível e agradáveis. Essa forma de fazer música é proposital ou fluiu de forma natural?

Gustavo Demarchi: Obrigado! Creio que flui de forma natural, exatamente por que podemos fazer o que quisermos, temos essa autonomia. Não existem (pelo menos eu como compositor não uso) formulas pré-prontas para composição e não considero por exemplo, o tempo de duração de uma determinada música apenas para caber em uma estética. Além disso, temos o privilégio de nos expressarmos num estilo que é livre por definição. Então podemos dosar sem medo suítes com várias partes e estruturas mais complexas e longas, bem como canções mais concisas. Eu sempre tendo a gostar daqueles artistas que te surpreendem, e procuro trazer isso para o meu trabalho. E essa mistura é o que a banda é. Mas isso não é via de regra e o próximo album pode conter apenas canções de 30 minutos e ainda assim continaremos sendo nós. Creio que pré-concepções e fórmulas prontas tendem a engessar o processo.

GM: Percebo também que a banda explora possibilidades ligadas aos nosos sentidos, criando sensações e ambientações impressionantes ao ouvirmos os discos da banda. Gostaria de perguntar se são as músicas que direcionam o som para esse caminho ou se é essa experiência sonora que ajuda a trilhar os caminhos das composições.

Gustavo Demarchi: Excelente pergunta. Claro que as canções direcionam, mas é importante ter a base e não ter medo de "acrescentar" ao resultado. Assim, creio que seja o mesmo caso de tentar "ampliar" de fato as experiências sonoras. Mas as canções que tendem a pedir por isso. No que se refere a questão estética, eu que além de músico também sou artista gráfico, sempre me fascinei pela questão visual, e é algo que trazemos para nossos albuns exatamente com esse intuito de ampliar a experiência sonora. Além disso, temos uma possibilidade infinita de expressões transcendendo a música, como teatro, literatura, que fazem parte da nossa vida e não precisamos ser exclusivistas em relação a isso. Para dar um exemplo, na canção Cut, que abre o DVD, eu me apresento de máscara. Sempre achei que era uma canção que possibilitava esse tipo de interpretação. Ela não foi feita com esse fim, inclusive originalmente foi gravada antes de minha entrada, mas hoje a máscara é quase obrigatória quando executamos a canção ao vivo. Estamos em um momento em que as mídias se integram, e a internet é um exemplo prático disso então prá que excluir boas idéias apenas por que não são musicais?

GM: O Galeria Musical agradece a entrevista e parabeniza a banda pelo lançamento desse importante box, certamente um motivo de orgulho para o Rock Progressivo brasileiro.
Eloy Fritsch – Nós é que agradecemos pela oportunidade de comentar a respeito do lançamento. Gostamos muito do seu site e desejamos muito sucesso para você e seus colaboradores.

Gustavo Demarchi: Muito obrigado a vocês pelo espaço e pelo apoio. Gostaria de agradecer a todos os amigos e admiradores da nossa música. Convidamos todos a conhecerem nosso trabalho através do site oficial, comunidade no orkut, myspace, etc. E esperamos logo nos encontrar na tour do boxset. Fiquem ligados para as datas. Nos veremos em breve.



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