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Resenhas do Artista

Resenhas

    NAÇÃO NORDESTINA

    ZÉ RAMALHO
    2000
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 5.00


    Há dez anos Zé Ramalho lançava um de seus álbuns mais importantes, ou o mais importante, como cita Assis Ângelo no encarte do CD. O álbum, conceitual, já entrega essa grandiloqüência em seu projeto visual: a capa é uma homenagem ao clássico “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, com os ícones nordestinos de todos os tempos posando ao lado de Zé Ramalho; o projeto gráfico inclui um generoso libreto com as letras e a sinopse de cada faixa do álbum duplo.

    A idéia de criar um álbum que mostrasse ao Brasil a cara do Nordeste, não só colocando o dedo na ferida, mas também apresentando a riqueza cultural de canções de autores conhecidos do grande Brasil, em conjunção com outros quase anônimos, além do próprio Zé Ramalho, que contribui com seis músicas inéditas suas, dentre as vinte do álbum.

    Algo que faz “Nação Nordestina” tão especial é o conceito do álbum, baseado nas desventuras de um viajante percorrendo o nordeste do Brasil. As canções vão se encaixando em um mosaico de teor político, que é endossado pelos canhões das tropas em “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, regravação de Geraldo Vandré, aqui recheada de efeitos que a torna uma das melhores gravações já feitas da música.

    A política está em outros momentos do álbum como em “O Meu País”, onde, sem mais delongas, Zé vai direto ao assunto, apontando o dedo, mas de “bico calado”, as desigualdades do país. Ou ainda em “Ele Disse”, que ganha ainda o discurso do presidente Getúlio Vargas, realizado no dia do trabalhador em 1951.

    O sertanejo que caminha ao longo do Nordeste também retrata os seus costumes em vários momentos como na regravação de “Lamento Sertanejo”, de Gilberto Gil e Dominguinhos, que ganha o reforço do próprio herdeiro musical de Luiz Gonzaga, e da Guitarra de Robertinho do Recife, que é o produtor do álbum.

    Os contrapontos também ilustram a obra de Zé Ramalho, às vezes até em sequência, que é o caso das faixas “Temporal” e “Seres Alados”. Se na primeira o viajante entrega que “quem cala, consente a fala”, na segunda a indignação toma conta e manda “Não mais estaremos calados”, contando com o fim da submissão dos gritos do capitão da canção anterior.

    No fim do primeiro disco, Zé Ramalho faz uma espécie de duelo de irônicas perguntas e respostas com o povo na canção “Mourão Voltado Em Questões”, novamente com contexto político, dessa vez corroborado pelo povo que segue o sertanejo ao longo dessa caminhada proposta no disco.

    Já o disco 2 é menos político, recheado de participações especiais, é muito mais devotado ao ritmo nordestino, como entrega a primeira faixa “Violando com Hermeto”, uma canção instrumental onde Zé Ramalho e Naná Vasconcelos duelam com Hermeto Pascoal. O trem da canção, criado por Naná, abre espaço para o êxodo em “Hino Nordestino” como entrega a letra da canção “...tentar a sorte no Rio de Janeiro, São Paulo, no mundo aceito o desafio...”.

    Em “Bandeira Desfraldada”, temos uma interessante fusão de uma cítara brilhantemente nordestina, tocada por Robertinho do Recife, que ganha o reforço da Elba Ramalho, inspiradora da canção gravada originalmente em 1978.

    O êxodo continua a ser retratado no álbum através da regravação de “Pau-de-Arara” do mestre Luiz Gonzaga, aqui com uma riqueza musical incrível, capitaneada por uma verdadeira seleção de músicos. “Amar Quem Já Amei”, transcrita aqui como forró com a participação de Ivete Sangalo, traduz os maiores medos dos retirantes como o fracasso da volta sem êxito à terra natal.

    Por vezes as tristes letras, principalmente no reflexivo segundo disco, são eclipsadas por ritmos alegres, como pode ser percebido em “Garrote Ferido”, com as marcantes participações de Fagner, Pepeu Gomes e a percussão de Mingo Araújo.

    A saudade da terra querida, porém é doída e aqui é validada pela canção “Paraí-ba”, com melancólico vocal de Flávio José e brilhante arranjo de Zé Ramalho.

    “Eu Vou Pra Lua”, divertido forró gravado originalmente em 1960, nove anos antes de o homem pisar na lua, traz, nessa nova versão, a participação do grupo pernambucano Cascabulho, na última participação especial do álbum.

    A tensa e apocalíptica “Esses Discos Voadores Me Preocupam Demais”, recheada de efeitos especiais, apresenta a curiosidade e discussões sobre a existência ou não de vida fora da Terra. Apesar de muito bacana, esta é a única canção que talvez fuja um pouco da temática principal, presente em todo o álbum.

    Com “Digitado Em Poesia”, o viajante que percorre o sertão apontando as mazelas, medos e esperanças da nação nordestina, chega ao final da caminhada, sabendo que chamou a atenção, fez barulho, e principalmente, mostrou a beleza de sua cultura e o talento de seu povo.

    Zé Ramalho construiu uma obra singular, que merece estar sempre disponível através de disco, para ser ouvida, estudada e compreendida pelas próximas gerações. “Nação Nordestina” é mais que um disco, é um invólucro munido de história e literatura, cantada e tocada.

    Como em seus últimos álbuns Zé Ramalho prestou homenagem aos seus ídolos Raul Seixas, Bob Dylan e Jackson do Pandeiro, seria uma boa se ele resolvesse prestar um tributo a si mesmo. Certamente consistiria em uma grande idéia se o projeto “Nação Nordestina” ganhasse edição comemorativa com versão em vinil (já pensou a maravilhosa capa do CD em tamanho de LP?), álbum ao vivo, e DVD com a releitura na íntegra desse álbum. Não custa nada sonhar, não é mesmo?


    TÁ TUDO MUDANDO

    ZÉ RAMALHO
    2008
    Por Anderson Nascimento

    álbum ainda não votado pelos leitores


    Em seu novo disco, Zé Ramalho corrobora a sua sempre citada aproximação com Bob Dylan. Nesse álbum, encarado pelo Paraibano como uma parceria, e não uma homenagem, Zé viaja pelo cancioneiro de Bob Dylan, trazendo para o português alguns dos clássicos do mestre Dylan.

    O interessante nesse projeto é o fato de as versões serem quase que uma tradução das músicas para o português, fato que levou Dylan a autorizar o projeto. Em alguns casos porém, Zé Ramalho adaptou a letras para se encaixarem mais ao cenário brasileiro.

    Um exemplo disso é o clássico “Mr. Tamborine Man” que virou “Mr. Pandeiro” em uma linda homenagem á Jackson do Pandeiro. A versão é um dos grandes momentos do disco, com o tradicional ritmo nordestino sendo entoado ao longo da canção, com direito até mesmo a um solo de pandeiro no fim da música. Brilhante!

    É certo que os fãs xiitas de Bob Dylan talvez não curtam tanto o disco, pois Zé mexe com um legado histórico que inclui “Blowing in The Wind”, “Like a Rolling Stone” e “ Knockin' on Heaven's Door ”.

    Zé Ramalho com a sua voz apocalíptica, junto com a sonoridade nordestina, consegue fazer um disco capaz de surpreender quem espera um mero disco de versões. O novo lançamento é bem mais que isso, é inteligente e empolgante. Uma prova disso é o fato do artista fugir em alguns momentos do óbvio e buscar músicas não tão famosas de Dylan, como o caso de “Man Give Name To All Animals”, que virou “O Homem deu nome a todos os animais”, outro grande destaque do disco.

    A única faixa que Zé Ramalho não verteu para o português foi “It Not For You”, mas em compensação recriou a música indo ao extremo no quesito ritmo nordestino.

    Outras músicas já conhecidas que também entraram no disco foi “Negro Amor”, com a versão de Caetano Veloso para “It´s All Over Now Baby Blue”, já regravada por diversos artistas como Toni Platão, Paulo Ricardo e Engenheiros do Hawaii, e “Batendo na Porta do Céu” em uma versão um pouco diferente da lançado por Zé Ramalho no seu disco “Antologia Acústica”.

    Um disco para ouvir e curtir.


    ZÉ RAMALHO CANTA JACKSON DO PANDEIRO

    ZÉ RAMALHO
    2010
    Por Anderson Nascimento

    opinião dos leitores: 3.00


    O novo projeto especial do cantor paraibano Zé Ramalho, dá sequencia a outros três CDs onde Zé homenageou Raul Seixas, Bob Dylan e Luiz Gonzaga. As homenagens justificam-se por trazerem as canções de artistas que influenciaram a formação musical e a carreira de Zé Ramalho nas vertentes Rock, Folk, Baião e Forró.

    Para dar forma a esse álbum, lançado pelo selo Discobertas, Zé Ramalho uniu quatro novas gravações realizadas em março de 2010 a gravações espalhadas pelos seus discos, além de duas gravações inéditas em disco, feitas em 2005: “Forró de Surubim” e “Forró da Gafieira”. Dessa maneira, esse projeto configura-se em um valioso item para qualquer fã e colecionador de Zé Ramalho, bem como para aqueles que querem conhecer a obra de Jackson do Pandeiro e, por tabela, a rica produção musical nordestina.

    Das gravações recentes, “Lamento Cego”, abre o pacote e o disco, e a interpretação de Zé é de emocionar, a dramática letra consegue suporte nos vocais do cantor, já fomentando a audição do restante do álbum.

    E o álbum faz bonito, reunindo interpretações de canções capazes de animar qualquer festa, ou o estado de espírito de qualquer um. Se duvidar disso, escute “Casaca de Couro”, “O Canto da Ema” ou a didática “Quadro Negro”, e entre no clima.

    A extensa discografia do homenageado e a forte influência de sua música ao longo de toda a carreira de Zé Ramalho, possibilitam que sejam pinçadas gravações de várias épocas, como o caso da gravação de “O Canto da Ema”, feita nos anos noventa, com a participação de Sivuca. Ou ainda o Medley (também feito nos 90s) que conta com “Sebastiana”, um dos maiores sucessos de Jackson, “Um a Um” e “Chiclete com Banana”, que volta no mesmo disco em uma gravação de 2002, junto com Waldonys no acordeom e voz. Nesse time também vale citar “Ele Disse”, canção gravada em 2000 com um time de primeira que inclui Arthur Maia e Robertinho do Recife.

    “Quadro Negro”, “Cabeça Feita” e “Lá Vai a Boiada”, encerram o disco completando as gravações realizadas em março de 2010. Em tom de compilação e homenagem, “Zé Ramalho Canta Jackson do Pandeiro” é um importante registro que consegue fundir canções que fazem parte da vasta obra de Jackson com interpretações bem arranjadas e cuidadosamente produzidas do mestre Zé Ramalho.

    Jackson do Pandeiro, nascido José Gomes Filho, e falecido em 1982 aos sessenta e dois anos, conhecido como “Rei do Ritmo”, foi cantor, compositor e músico, e passou por diversos gêneros musicais como, além de outros, Forró, Samba, Baião, Xote, Xaxado, Coco e Frevo.


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