Resenha do Cd Crescendo / Ultraje A Rigor

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CRESCENDO
ULTRAJE A RIGOR
1989

WARNER MUSIC
Por Anderson Nascimento

Dois anos após o sucesso do disco “Sexo”, que venceu o difícil desafio do segundo disco, a banda Ultraje a Rigor ainda estava entre os mais ressonantes nomes de nosso hoje chamado “BRock”. Mas internamente o grupo sofria com o desgaste do sucesso estrondoso que faziam desde 1984, sem férias, e com todos os holofotes acima de cada passo do grupo.

O cenário em que se encontrava o grupo favorecia que o terceiro disco do grupo não repetisse o mesmo sucesso dos outros dois, porém a banda, já amadurecida, entra em estúdio e cria o hoje clássico “Crescendo”, que parece trazer, até mesmo em seu nome, essa vontade de ser diferente, de crescer talvez.

O disco foi bem recebido por boa parte do público, tanto que ganhou disco de ouro, muito embora tenha sofrido com as várias barreiras impostas pela imprensa, além da má vontade da crítica. Uma delas o boicote aos singles “Filha da Puta”, “O Chiclete” e “Volta Comigo”, canções que traziam palavrões em suas letras, só para testar se o anunciado fim da censura estava mesmo valendo, além disso, o uso de temas polêmicos como adultério, críticas ao governo e ao modus operandi da família brasileira, também ajudaram a criar uma carga espessa em torno do álbum.

O álbum traz uma carga conceitual ao longo de sua reprodução e, de cara, a banda tenta hipnotizar o ouvinte se aproveitando do selo do disco, em forma de espiral, e frases com essa motivação, somando-se ao caos sonoro da própria faixa, embebida com gritos e barulhos histéricos que quase te deixam louco no início do disco.

A já citada “Filha da Puta” emenda a continuação do disco com letra de forte crítica ao país, e perfeito instrumental roqueiro, assim como a sua sequência “Volta Comigo”, que trata de um adultério, faz do início de “Crescendo” um dos mais arrasadores inícios de disco em toda a história de nosso Rock.

“Laços de Família” é outra canção angustiante, com o vocal do guitarrista Serginho, a letra que critica fortemente a família brasileira, formando um Punk-Rock perturbador. Falando em Punk, o disco também urde ao seu conteúdo, outros estilos, como o Rockabilly, em diversos momentos, e elementos eletrônicos, como em “Secretários Eletrônicos” e “Maquininha”.

Canções como “Ricota”, um Rockabilly composto pelo ex-Ultraje Edgar Scandurra, cantada aqui pelo baixista Maurício, apostavam mais no instrumental, além de o disco ser composto por várias vinhetas instrumentais, como “Crescendo”, “Secretários Eletrônicos”, “Maquininha”, “Ice Bucket” e “Os Cães Ladram (mas Não Mordem) e a Caravana Passa”, ainda assim essas canções resultaram em interessantes faixas, que são corresponsáveis por dar ao álbum a característica peculiar que o mesmo tem.

É claro que o incidente ocorrido em Santa Catarina, onde uma mãe acusou Roger de ter abusado de sua filha, não poderia passar em branco dentro desse álbum. E para quem não conhece o caso, Roger o transcreve na canção “Crescendo II (A Missão)”, um reggae de quase seis minutos que abre o lado dois da versão original do álbum.

O disco segue com mais um Rockabilly da instrumental “Ice Bucket”, e a belíssima “Coragem”, canção que não entendo o porquê de ela ser tão lado B na carreira do grupo. Mais uma experimentação se segue “Os Cães Ladram (mas Não Mordem) e a Caravana Passa”, onde cães “cantam” a faixa, para enfim encerrar com mais duas músicas polêmicas, “Querida Mamãe”, canção composta e cantada pelo guitarrista Sergio Serra, que fala da paixão da mãe pelo filho, e o single, que encerra o disco, “O Chiclete”, que novamente trazia um palavrão, hoje tão ingênuo, mas que na época foi motivo de censura indireta à banda.

“Crescendo” não foi entendido na época, talvez esperassem que o Ultraje seguisse a linha dos seus álbuns anteriores, mas era um momento onde as bandas estavam transformando o seu som, após o estouro das bandas do BRock, onde cada uma seguiu o seu caminho. Hoje o disco representa um rompimento com toda a exposição que a banda sofreu, e os reflexos provocados pela mesma, além de ser um álbum onde a banda pôs a boca no trombone e falou tudo o que queria como bem entendia. Visto como um poderoso álbum de Rock, instrumentalmente perfeito, o disco pode ser considerado como um dos melhores da banda, ombreando com o clássico disco de estreia.

Esse descompromisso e autonomia musical fazem hoje de “Crescendo” um grande clássico do Rock brasileiro e, em tempos de revisitação de álbuns, já está na hora de o disco ganhar uma edição comemorativa, para que as gerações mais jovens possam conhecer e apreciar essa obra-prima.

Resenha Publicada em 20/07/2012





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