Resenha do Cd Krig-ha Bandolo / Raul Seixas

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KRIG-HA BANDOLO
RAUL SEIXAS
1973

UNIVERSAL MUSIC
Por Claudinei Jose De Oliveira

Se existe um rock nacional, este é o seu "marco zero". Mas Os Mutantes e a turma da Tropicália já não haviam misturado ritmos nacionais com rock? Sim, claro, porém, tal mistura na Tropicália possui um ranço intelectualóide, como o de cientistas num laboratório fazendo experimentos, enquanto que, aqui, quase não se pode falar de mistura, pois os ritmos nacionais estão tão amalgamados ao rock que é difícil saber onde começa um e termina outro.

Aqui, também, o conceito de protesto não abre concessão. Senão, vejamos: o álbum abre com uma gravação caseira de Raul, ainda criança, na base da empolgação, esgoelando uma versão de "Good Rockin' Tonight". De repente, o inusitado: a roda de capoeira de "Mosca Na Sopa". O que é que, na história nacional, foi mais incômodo para a elite dominante que a afirmação cultural negra? Qual é a melhor metáfora para o descontrole social, além de qualquer credo, ideologia ou partidarismo senão a de uma mosca? Fora uma meia dúzia de gatos pingados que, no "milagre brasileiro", tiveram o privilégio de uma formação universitária e, consequentemente, ideológica, o povão estava ao Deus dará, caindo e se levantando como mosca, alheio a qualquer liderança.

A título de ilustração, "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores", de Geraldo Vandré era, direta e objetivamente, uma canção de protesto, mas padece de um enfado "hippongo" e, pior, não mascara o ressentimento típico à esquerda em não poder ser o que a direita é: vamos livrar a sociedade da opressão errada e instaurarmos a opressão correta.

"Metamorfose Ambulante" não deixa dúvida. Se havia algum pedaço de dogmatismo, crença ou convicção se aguentando ele, agora, vai por terra. É a liberdade individual da transformação através do conhecimento posta como bem supremo e inalienável do ser humano.

"Dentadura Postiça" e "As Minas Do Rei Salomão" dão uma baixada na bola e trazem o embrião de "misticismo para as paradas de sucesso" que, juntamente com Paulo Coelho, será melhor explorado no álbum "Gita". Isto sem contar que a versão para a segunda, presente no álbum "Há 10 Mil Anos Atrás", tem muito mais "punch".

Num clima de trilha sonora para uma ficção científica interplanetária da época, "A Hora Do Trem Passar" é uma canção de despedida, onde o fascínio e o terror do desconhecido, presente em qualquer partida, é a promessa de viagens a outros mundos, reais ou figurativos. Tudo isso embalado num lirismo de doer.

"Al Capone", em sua levada "hendrixiana" largadona, brinca com mitos históricos (inclusive o próprio Hendrix!) e com as limitações espaço/temporais.

"How Could I Know?", uma tocante balada sobre o despertar e a afirmação da individualidade encerra com o dilema da história eleger como mártir os corajosos, numa espécie de complemento sério à brincalhona "Al Capone".

"Rockixe" é uma "Mosca Na Sopa" despida de fábula e, juntamente com "Cachorro-Urubu", reforça a postura "Egoísta" (no sentido filosófico de engrandecimento e valorização do "eu"), tão cara a Raul Seixas durante a década de 1970.

Por último, "Ouro De Tolo". Talvez, juntamente com algumas canções de Zé Ramalho, a mais perfeita tradução do espírito "dylanesco" de composição para o cancioneiro nacional. Na lírica (letra) é também a mais direta e o que, no restante do álbum, se insinuava é, aqui, escancarado: uma exímia "puxada de tapete" na perfeição do mundinho classe média que, em seus pequenos confortos, escondia grandes lavagens cerebrais.

O instrumental dispensa comentários pois, qualquer um que conheça um pouco da carreira do "Maluco Beleza" sabe que, antes de cantor de sucesso, ele foi produtor musical e, assim sendo, dominava a técnica de tornar viável e convincente qualquer estilo musical para o ouvido consumidor. Aí, o desleixo, a espontaneidade, a gana, a pegada e a atitude por trás de cada canção foram cuidadosamente planejados, tanto que, muitas vezes, os especialistas no assunto subestimaram o executor. Algo que não ocorreu à Tropicália que, diga-se de passagem, pactuava intencionalmente com os conceitos antropofágicos de Oswald de Andrade: "a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico". Será que o povão a consumiu como consumiu Raulzito?

Resenha Publicada em 26/01/2015





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