Resenha do Cd Pearl Jam / Pearl Jam

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PEARL JAM
PEARL JAM
2006


Por Ricardo Schott

O Pearl Jam está prestes a sair de seu processo de mumificação. Não que a banda tenha sido uma chatice nos últimos anos - mas esteve perto disso. O público fiel acompanhou tudo ao lado da banda: o Pearl Jam tomou atitudes inovadoras, como a de lançar vários discos ao vivo simultâneos de sua turnê de 2000 e bancar uma rede de "piratas oficiais", administrada pela rede de fâs Ten Club, além de deixar a grandalhona Epic (subsidiária da major Sony & BMG)* para ingressar na gravadora J Records, bem menor. Em termos de música, havia muita gente achando, após alguns discos inferiores ou malucos demais, que eles estavam devendo. A ponto do PJ, ancorado em sucessos antigos e numa postura "roquenrol!" - que une o mistério do Pink Floyd, o hippismo de Neil Young e a "consciência" do U2 em doses iguais - já estar virando o mais novo fóssil do rock. Ou o caçula dos classics , time encabeçado por Bob Dylan e pelos Rolling Stones.

Os fâs da banda, que viram o Pearl Jam brigar com grandes corporações (como o gigante dos ingressos, Ticketmaster), sumir da imprensa e mergulhar em disputas internas, sempre estiveram lá. Só faltava mesmo um álbum que pudesse voltar a convencer o público ocasional do grupo - aquele que adorou Ten , a estréia do Pearl Jam (1991), e voltou a dar atenção a Vedder & cia após singles como "Soldier of love" e "Last kiss", no fim dos anos 90. E o disco que pode levar o PJ a voltar a fazer cabeças está nas lojas hoje. Pearl Jam já começa impositivo em seu título, que leva apenas o nome da banda. Ouvindo-se o álbum, dá para imaginar que o Pearl Jam já sentia a ferrugem comendo seus calcanhares. O disco pode chamar de volta vários fâs antigos da banda, e pode dar uma renovada em seu público. No álbum, o quinteto ressurge com outra cara, fazendo um hard rock que não se prende a chavões nem requenta a fórmula hardfunkeada que marcou seu início.

Desancando a era Bush em letras enérgicas, Eddie Vedder (vocais), Mike McCready, Stone Gossard (guitarras), Jeff Ament (baixo) e Matt Cammeron (bateria) surpreendem pelo número de informações musicais que unem num só disco - bem mais que em momentos iluminados do passado, como o difícil Vitalogy , de 1995. O single "World wide suicide", complexo inventário do mundo pós-11 de setembro de 2001, soa ensolarado como o Pearl Jam nunca foi: exibe um insólito lado oitentista da banda, com batida dançante, uma melodia de teor 100% pop se comparada à história pregressa do quinteto e um tom mais para Husker Du (pais do punk melódico, influência cabal em grupos como Green Day) do que para Led Zeppelin. O mesmo pode ser dito de "Unemployable", capaz de espantar quem sequer imaginasse que o Pearl Jam pudesse ter um lado powerpop - a primeira comparação que vem à cabeça é com o Sugar, a reencarnação do já citado Husker Du. Bem, a faceta alegre resume-se à melodia. Na letra, Eddie Vedder continua olhando para o lado mais fraco da corda - desemprego, falta de grana, poucas chances de sobrevivência, numa acidez que lembra um Bruce Springsteen mais pessimista.

O peso que marcou discos anteriores não foi deixado de lado - seja num hard rock com cara de The Cult ("Life wasted", que abre o álbum), seja num punkão com letra visceral ("Comatose", lembrando "Spin the black circle", do Vitalogy ), seja no folk rock de "Gone". Mais inovações surgem em "Parachutes", pérola pop que mostra o quanto a cover de "Last kiss" (sucesso sessentista regravado pela banda e hit total no Brasil entre 1998/1999) modificou o grupo. A ecológica "Big wave" tem um tom punk-new wave que lembra algumas doideiras do Nirvana. Já "Marker in the sand", rock´n roll de abertura tribal e refrão na cola de Bob Dylan e dos Stones, conquista pela beleza. A confiança do Pearl Jam no disco novo é tanta que o grupo se arriscou a tostar o saco do ouvinte, fazendo um blues ("Comeback") e uma canção sombria e arrastada ("Inside job") - que, no entanto, soam belas e bem colocadas.

Pearl Jam renova o som do quinteto bem na hora em que o rock volta a fazer sentido como música comercial. O cenário inclui roqueiros namorando modelos, festivais de grande porte bancados por empresas de telefonia, e o retorno do público jovem para um gênero que, de tempos em tempos, é dado como morto - mas que agora, adquire respeitabilidade de clássico. Na rara posição de banda sobrevivente da onda de Seatlle, não seriam eles que iriam brincar de dar murro em ponta de faca.

Resenha Publicada em 02/05/2006





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