Resenha do Cd Axis: Bold As Love / Jimi Hendrix

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AXIS: BOLD AS LOVE
JIMI HENDRIX
1967

SONY MUSIC
Por Valdir Junior

Lançado apenas sete meses após o disco de estreia “Are You Experienced”, e gravado em meio a uma agenda repleta de shows pela Europa e Estados Unidos, pois o contrato de gravação com a Track Records estipulava que a banda lançasse pelo selo dois álbuns naquele ano de 1967. Mesmo cansado e cheio de problemas devido a um contrato firmando em 1965 (numa época que o sucesso parecia muito distante) com Ed Chalpin, Jimi Hendrix estava animado com o sucesso de sua música e a cabeça continuava fervilhando de ideias musicais, e foi com a música que Hendrix encontrou como sempre um porto seguro para manter a sanidade, e se jogou de corpo e alma compondo novas canções.

A inspiração para o álbum foi o livro “Book of The Hopi”(1963) de Frank Waters, sobre a mitologia dos índios Hopi do noroeste dos Estados Unidos, que Hendrix estava lendo na época e já era um tema que vinha sendo cantados por ele ainda no primeiro disco (Purple Haze, Red House) e situações e emoções que já eram frequentes na vida dos músicos e os eternos temas arquetípicos do Blues e ainda um pouco de ficção cientifica, um dos assuntos preferidos de Hendrix, ainda mais naquele tempos de corrida espacial antes do homem chegar a lua.

O entrosamento de Hendrix com Noel Redding e Mitch Michell estava perfeito, decorrente da maratona sem fim de shows, o que facilitou e ajudou em muito o fragmentando processo de gravação do álbum. Se no álbum anterior os músicos pouco ou quase nada participaram da mixagem final, pois Chad Chandler (empresário/produtor e ex-The Animals) não deu espaço para isso, neste os três tomaram conta de tudo, usando todos os recursos que o então novo estúdio de quatro canais tinha a oferecer para dar um passo a frente na musica do “Experience”.

O álbum abre com a faixa experimental "EXP", uma micro estória sobre Óvnis e UFOs, e com uma grande influência da música concreta do alemão Karlheinz Stockhausen, na época deixou muita gente sem entender nada, achando que o disco estava com defeito; logo em seguida somos levados aos céus com a jazzista "Up from the Skies" com Hendrix usando um Wah-Wah deliciosamente: a pesada e dançante "Spanish Castle Magic" é uma das músicas do álbum que mais guarda semelhança com as do disco anterior e a partir daqui seria uma das músicas sempre presentes nos set list dos shows.

"Wait Until Tomorrow" é uma típica pop song com bela vocalização e uma guitarra pra lá de swingada (Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram uma boa versão dessa musica no álbum “Tropicália 2”); "Aint No Telling" é bem curta (tem 1m e 46s) talvez por isso ela seja muito pouco lembrada quando se fala das canções de Jimi Hendrix, o que é uma pena já que ela tem uma ótima guitarra base, cheia de swing e a bateria muito bem marcada por Mitch Mitchell; "Little Wing" é a grande faixa do álbum e uma das obras primas compostas por Hendrix, baseada num conto dos índios americanos e com uma guitarra maravilhosa que nos faz sentir a plena sensação de estar voando nas asas desse pássaro. Ela já foi muito regravada por diversos cantores e guitarristas, mas uma versão que vale e muito apena ouvir, é a emocional homenagem que Eric Clapton fez a Hendrix com ela no álbum “Layla and Other Assorted Love Songs”.

"If 6 Was 9" é um Funk-Blues-Acído com uma letra poética, Hippie e cheia de conceitos da contra-cultura do meio dos 60’s; "You Got Me Floating" e. "Castles Made of Sand" são exemplos típicos de para onde Hendrix estava direcionado sua música, usando tudo aquilo que ele aprendeu nos palcos sujos e pequenos ao longo da estrada percorrida e tudo aquilo que estava acontecendo no mundo da música (Beatles, Sgt.Pepper’s, Psicodelia, Swing London, etc..); "She's So Fine" composta e cantada pelo baixista Noel Redding, apesar de não acrescentar muito enquanto canção, tem Hendrix estraçalhando na guitarra com bastante distorção e Mitch Mictchell não deixando pedra sobre pedra com sua bateria .

"One Rainy Wish" e "Little Miss Lover" já antecedem um pouco o som que estaria presente no álbum seguinte, misturando Soul, Blues, Funk, Jazz num formato novo para época, mas que hoje é muito comum em bandas e músicos “antenados e espertos”. "Bold as Love" encerra o disco numa síntese de tudo que rolou desde a primeira faixa, usando como exemplo a simbologia das cores para representar as varias formas que o ser humano pode se relacionar e se encontrar como ser único e também o tema do “Eixo” presente na mitologia Hopi; O eixo de rotação do planeta, onde um pequeno desvio para um lado ou outro transforma totalmente as condições do planeta assim como situações da vida de cada um.

A capa criada por Gered Mankowitz foi inspirada na imagem indiana das reencarnações do Deus Vishnu, criou uma certa confusão na época, porque muitos imaginaram que iriam encontrar Jimi Hendrix tocando Ragas Indianos, Sitars e etc. Hendrix em primeiro momento não gostou muito da capa, mas depois conseguiu fazer uma conexão do tema e termo “indiano” com os índio americanos de quem ele descendia e tinha uma grande empatia e ligação.

Depois desse álbum o “The Jimi Hendrix Experience” lançaria mais um álbum, o excelente e essencial “Eletric Ladyland”, mas problemas internos entre os músicos (principalmente entre Jimi e Noel) fariam Jimi seguir em frente numa atípica carreira solo; “Axis: Bold as Love” é um dos três discos fundamentais que representam o som que Jimi Hendrix fez, e como ele sem conhecimento musical formal nenhum conseguiu transformar o jeito de tocar, gravar a criar o som da guitarra que até hoje continua atual, inteligente e acima de tudo feito com a alma.

Resenha Publicada em 23/07/2013





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