Resenha do Cd Desterro E Carnaval / Rogério Skylab

DESTERRO E CARNAVAL title=

DESTERRO E CARNAVAL
ROGÉRIO SKYLAB
2015

INDEPENDENTE
Por Felipe Lucena

Recentemente, em uma entrevista para um programa de TV, Rogério Skylab disse que estava cada vez menos bonito e cada vez mais sábio. A segunda parte da afirmação procede. A primeira, também. Depois da série dos 10 discos do projeto Skylab e de outras ações na área musical, Rogério iniciou os trabalhos da trilogia "Abismo e Carnaval (2012)", "Melancolia e Carnaval (2014)" e "Desterro e Carnaval (2015)", da qual se trata este texto.

O compositor carioca, que desde as primeiras canções dividiu opiniões - de um lado os que o achavam gênio, do outro, os que o viam como um louco -, nessa trilogia expôs de forma lírica sua genialidade criativa, capaz de construir desconstruindo. Apoiando-se em ritmos e gêneros mais regionais (bem longe do Rock de garagem que o deixou conhecido no início da carreira), o artista seguiu em seu bloco solitário, mostrando que loucura e genialidade, muitas vezes, usam a mesma fantasia, a mesma aparência.

Nessa trilogia, embora harmonizada por levadas sonoras bem mais delicadas e sensíveis, o bom e velho humor negro de Rogério Skylab ainda está presente. No entanto, nem só de letras debochadas vivem os discos. Textos reflexivos, melancólicos e até emocionantes são narrados nas músicas. Ao todo, citando os três álbuns, foram nove participações especiais: Jorge Mautner (em Abismo e Carnaval), Rômulo Fróes, Jards Macalé e Velha Guarda da Mangueira - Melancolia e Carnaval - e Arrigo Barnabé, Luis Capucho, Michael Sullivan, Fausto Fawcett e Tavinho Paes, em Desterro e Carnaval.

O trio de discos é aberto com a canção “Abismo e Carnaval”, no álbum homônimo. A música serve para situar o ouvinte. Em uma levada de samba antigo, elevado com cordas ao fundo, Rogério parece dar o recado "aqui vai ser um pouco diferente" e canta "O meu bloco é sem ninguém/A passista sou eu, rolando no caos".

Em “Num Banco da Praça”, Skylab faz um encontro entre seu novo trabalho com a antiga série. Uma música doce de ouvir é letrada "Já amanhecia, sem saber a razão/De tanta melancolia, Buceta, não chora não/Quando veio vindo, garboso e tão jovial/ o cu tava tão lindo, o cu é universal”.

“Se fosse impossível a canção” é quase autoajuda. Porém, com qualidade para leitor ou ouvinte nenhum botar defeito. O compositor diz para si mesmo e para quem mais quiser saber que faria algo do seu jeito, como faz - muito bem feito, caso.

Partindo para o Melancolia e Carnaval, o artista frisa em “Hino Americano” toda sua capacidade de erguer sobre os destroços. Ele derruba o hino da nação mais poderosa do mundo, toda ligada aos preceitos de trabalho protestante e cria um vagabundo que está pouco se lixando para uma labuta séria.

Muita gente associa as letras de Rogério Skylab ao humor. Contudo, ele sempre falou bastante sério em suas escritas. “Aqui todo mundo é preto” pode até soar engraçada, mas dá um recado “O pó de arroz é preto/manjar de coco preto/a minha pele é preta/O presidente é preto/nosso futuro é preto/todas as cores no preto”.

A nona música do Melancolia e Carnaval é um jazz quase mambembe que fala em correr perigo, ir rápido para uma zona, talvez, menos confortável. Muito parecido com esse novo andar da carreira do carioca. O risco resultou em sucesso.

Lançando esse ano, Desterro e Carnaval, que fecha a trilogia, se inicia com “Branco do Brasil”, que com trocadilhos e um swing discreto, faz críticas à história do nosso país.

Um piano clássico, forte ao fundo faz base para “Atravesso os dias”. Essa música pode ser um mapa da carreira de Rogério Skylab e de muitos outros artistas que seguem com seus trabalhos, tendo ou não grandes apoios culturais e econômicos.
O carnaval de Skylab acaba com a “A árvore”, derradeira do Desterro. A parceria com Fausto Fawcett viaja por temas e imaginações, deixando o fim da trilogia aberto, livre.

Que assim seja. Depois dessa bela trilogia, que Rogério Skaylab continue investindo em suas loucuras e nos emprestando sua genialidade, sem se preocupar com a casca, a cara ou máscara.

Resenha Publicada em 06/07/2015





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