Resenha do Cd O Filho De José E Maria / Odair José

O FILHO DE JOSÉ E MARIA title=

O FILHO DE JOSÉ E MARIA
ODAIR JOSÉ
1977

RCA
Por Guilherme Cruz

Quem viveu nos anos 1970 não apenas enfrentou a ditadura, mas certamente ouviu, em qualquer estação de rádio da época, algum sucesso de Odair José. Na época um dos maiores vendedores de disco, Odair era conhecido como um dos ícones da música cafona. No entanto este epíteto foi desconstruído pelo próprio cantor quando lançou, em 1977, o disco O Filho de José e Maria. Uma ópera-rock que conta a história de um personagem que nos remete à Jesus Cristo. Utilizando este disco para questionar diversos tabus da época, Odair enfrentou não apenas o fracasso comercial, mas a crítica intensa de seus fãs e de parcelas da sociedade que viam neste álbum um teor herético.

Quando inicia o disco cantando “Eu agora sou bem diferente” Odair José se mostra um cantor renascido, que deixa para trás seus traumas na canção “Nunca Mais”. Ele não recusa seu passado, se utiliza dele como alimento para esse novo Eu.

“Não me Venda Grilos” abre a história contada no disco. Em formato de balada (gênero característico da discográfica do cantor), a música revela o amor de Maria e José, enquanto ele esboça sutis pensamentos existenciais como no trecho “Viver já pesa muitos quilos”. No entanto até mesmo os maiores amores revelam-se, às vezes, ciumentos. “Só Para Mim, Para Mais Ninguém” esboça os medos comuns de um casal, como o temor pelo fim do amor ou das paixões clandestinas.

Mostrando a musicalidade de sua banda, formada por guitarra, baixo, bateria e sintetizador, formação comum na segunda metade dos anos 1970, Odair muda o foco da narrativa, nos apresentando um personagem perdido, em busca de um caminho e de um guia. Contrapondo a loucura e a lucidez “É Assim” não só nos mostra alguém sem rumo, quanto também revela algo que poucos sabiam sobre o cantor. Nesta canção ele nos mostra sua rebeldia contra a opressão da ditadura, no trecho “Morrer ainda não é proibido” nos é revelado a estrutura controladora de um Estado totalitário, mas logo em seguida nos convida à transgressão: “Que tal tentarmos a sorte”.

Voltando aos personagens da história, “Fora da Realidade” quem canta é Maria, relatando, em meio a juras de amor, a vinda de um anjo e a revelação de sua gravidez.

“O Casamento” é uma das músicas mais interessantes do disco, por sua polêmica, que levou Odair a ser excomungado da igreja católica; sua estrutura com seis minutos de duração, que fugiam do tempo tradicional da canção de três minutos; e sua narrativa, composta por um diálogo entre o padre e o sacristão. Chamo atenção para a forma que a canção constrói a figura do padre, autoritário, perverso quase monstruoso. Motivo que justificou a excomunhão.

Quando pensamos na história bíblica uma lacuna dentro de sua narrativa nos salta aos olhos, o desaparecimento de José quando Jesus retorna aos trinta e três anos. Neste disco a canção “O Filho de José e Maria” nos explica esta ausência relatando o divórcio do casal. O mais interessante desta ideia é que 1977 foi o auge da discussão sobre a legalidade ou não do divórcio. Portanto Odair desafia a tradição não só por cantar sobre este tabu, mas também por incluí-lo dentro da própria bíblia.

Como já diz no título da canção “O Sonho Terminou” não é exatamente a mensagem que esperávamos do messias. O que esta música nos traz não são palavras utópicas, mas sim verdadeiras, revelando a necessidade de sermos nós acima de tudo, de vivermos em harmônica com o nosso ser mais íntimo. Já em “De Volta às Verdadeiras Origens” Jesus é mostrado na sua tradicional forma de guia, o messias que nos salva e acalenta, que sofre com nosso sofrimento e nos alerta para não guardarmos traumas nem matarmos a esperança.

No fim o eu-lírico chega a uma conclusão em “Que Loucura”, ele olha para as experiências de sua vida, seus traumas e memórias, observa o mundo à sua volta e questiona o valor da lucidez quando diz e repete “Mas que loucura agente tem que viver”.

Este álbum não contem criticas e ironias apenas em suas letras, a capa também revela um artista ácido em suas referencias. A foto de um Odair bronzeado e de olhar duro, com um sorriso à lá Mona Lisa, remete a um Jesus sexualizado, sem camisa, cujo nome do disco, em neon, nos lembra os letreiros que destacavam as entradas dos bordéis. Retirando Jesus da figura mítica, para uma figura muito mais humana.

Resenha Publicada em 05/08/2016





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